Recentemente, encontrei no Instagram da Secretaria de Cultura de Bagé (Secult Bagé), em uma publicação colaborativa com a Casa de Cultura e outras páginas, um texto sobre o trabalho que me chamou a atenção.
Não porque o tema fosse uma novidade para mim. São questões que venho lendo, estudando e analisando há bastante tempo, especialmente a partir da filosofia da diferença e da sociologia. O que me deixou feliz foi perceber que esse tipo de conteúdo estava sendo compartilhado em um espaço público de cultura.
Em meio a tantas mensagens rápidas, opiniões prontas e discursos que naturalizam a maneira como vivemos, é importante que uma instituição cultural também abra espaço para a problematização, para o pensamento e para a criação de outras possibilidades de existência. Para mim, foi como um respiro em meio ao caos.
A partir daquele texto, resolvi escrever esta análise. Não para repeti-lo ou copiá-lo, mas para pensar com ele, acompanhar algumas de suas provocações e relacioná-las com questões que já fazem parte das minhas leituras, da minha prática e do trabalho desenvolvido na Educriar.
Uma das ideias que mais me marcou foi a maneira como o trabalho se tornou uma espécie de carteira de identidade.
Quando perguntamos a alguém “o que você faz?”, geralmente queremos saber qual é a sua profissão, onde trabalha ou de que maneira obtém sua renda. Parece que precisamos localizar a pessoa dentro do mercado de trabalho antes mesmo de conhecê-la.
A profissão passa a funcionar como uma etiqueta. Ela serve para classificar, situar e, muitas vezes, hierarquizar as pessoas. A partir dela, tentamos imaginar quanto alguém ganha, qual é o seu nível de escolaridade, que lugar ocupa na sociedade e quanto devemos respeitá-la.
A vida de uma pessoa acaba sendo reduzida à sua profissão.
Mas ninguém é apenas aquilo que faz para receber um salário. Somos também relações, desejos, cuidados, afetos, memórias, pensamentos, escolhas e possibilidades. Somos aquilo que criamos nos encontros com os outros e com o mundo. Há uma existência inteira que não cabe em um cargo, em uma função ou em um contracheque.
Também é preciso deixar claro que a questão não é afirmar que trabalhar muito é sempre errado ou que trabalhar pouco é sempre certo. Se alguém deseja trabalhar sete dias por semana, dedicar muitas horas ao trabalho e organizar sua vida dessa maneira, essa é uma escolha que diz respeito a essa pessoa.
O problema começa quando uma escolha individual passa a ser apresentada como o único modelo legítimo de vida.
Quem trabalha muito não é necessariamente melhor, mais digno ou mais responsável. Da mesma forma, quem prefere trabalhar menos para ter mais tempo para a família, para os cuidados pessoais, para os estudos, para a criatividade, para a convivência ou simplesmente para si não deveria ser chamado de vagabundo.
O problema não está em trabalhar mais ou menos. O problema está em querer impor uma maneira de viver sobre as outras pessoas.
Quando alguém transforma seu próprio modo de vida em medida universal, começa a julgar quem escolhe caminhos diferentes. A pessoa que trabalha excessivamente passa a ser vista como exemplo de caráter, enquanto quem busca outros equilíbrios é tratado como preguiçoso, fraco ou sem ambição.
Nesse momento, uma escolha pessoal deixa de ser apenas uma escolha e se transforma em julgamento moral.
É importante questionar por que apenas uma forma de organizar a vida é considerada válida. Por que o excesso de trabalho costuma ser associado à dignidade, enquanto o descanso, o cuidado e o tempo livre são vistos como desperdício?
A provocação de Paul Lafargue sobre o “direito à preguiça” continua atual justamente por isso. Não se trata de defender a ausência de atividade ou de negar a importância do trabalho. Trata-se de questionar uma sociedade que transforma todos os momentos da vida em tempo produtivo.
Descansar, conviver, cuidar, pensar, criar e simplesmente existir também são dimensões fundamentais da experiência humana.
O problema aparece quando o excesso de trabalho ocupa quase todos os espaços da existência. Mesmo fora do emprego, muitas pessoas continuam envolvidas com tarefas domésticas, responsabilidades familiares, preocupações financeiras e outras atividades necessárias à manutenção da vida. O tempo livre deixa de ser um espaço de descanso e criação e passa a ser apenas o tempo necessário para recuperar o corpo e voltar a trabalhar.
A vida começa a ser organizada em função da próxima jornada.
Além disso, a profissão e a renda passam a servir como uma espécie de régua para medir o valor das pessoas. Não se pergunta apenas o que alguém faz, mas quanto aquilo vale economicamente.
Essa lógica pode produzir situações profundamente injustas. Uma pessoa pode ter conhecimento, formação, experiência, sensibilidade e uma trajetória de trabalho, mas ser diminuída porque não acumulou dinheiro.
Por quê?
Porque, para muitas pessoas, o dinheiro se tornou a medida do conhecimento, da competência, do sucesso e até da dignidade.
Como se todo o potencial de alguém só tivesse importância quando convertido em riqueza. Como se escolher não priorizar o dinheiro fosse sinal de fracasso. Como se uma pessoa que investe seu tempo na educação, na cultura, no cuidado ou na participação social tivesse feito uma escolha menor.
Mas o valor de uma vida não pode ser calculado apenas pelo rendimento que ela produz.
A profissão pode fazer parte da identidade, mas não deveria esgotá-la. O salário expressa uma condição material, mas não define a importância de uma pessoa. A quantidade de horas trabalhadas pode indicar uma escolha, uma necessidade ou uma imposição e não é suficiente para explicar uma existência.
Na perspectiva da filosofia da diferença, talvez seja necessário perguntar: que modos de existência são impedidos quando o trabalho se torna a principal medida da vida?
Essa pergunta também atravessa o trabalho realizado pela Educriar. Não buscamos simplesmente preparar os jovens para se adaptarem de maneira submissa ao mercado de trabalho. Sabemos que muitos deles precisarão enfrentar esse mercado, buscar renda e construir formas de sobrevivência. Por isso, também é necessário oferecer conhecimentos e ferramentas para que possam compreender essa realidade e lidar com ela.
Mas preparar não significa naturalizar.
É possível conhecer as regras do mercado de trabalho sem acreditar que elas sejam leis naturais da existência. É possível exercer uma profissão sem permitir que ela ocupe toda a vida. É possível buscar autonomia sem acreditar que todo fracasso seja responsabilidade individual. É possível trabalhar e, ao mesmo tempo, imaginar outros caminhos.
A Educriar trabalha, na prática, com essa possibilidade de criação. Com os jovens, nem sempre essas questões aparecem de maneira direta ou com a mesma linguagem dos textos filosóficos e sociológicos. Mas elas estão presentes quando conversamos sobre liberdade, escolhas, futuro, relações, responsabilidade e possibilidades.
Educar também é preparar para a realidade sem transformar essa realidade em destino.
É mostrar que o mundo do trabalho existe, que apresenta desafios e que precisa ser enfrentado, mas que ele não deve capturar completamente a imaginação, os desejos e a capacidade de criar. Os jovens podem ingressar no mercado, construir sua autonomia e buscar sua sobrevivência sem aceitar que o trabalho seja a única forma possível de realização.
Para nós, educar também é criar.
Criar perguntas. Criar pensamentos. Criar possibilidades. Criar outros caminhos para a existência.
Aquilo que parece natural foi construído historicamente. E, justamente por ter sido construído, pode ser problematizado, questionado e transformado.
Não se trata de dizer que todos devem trabalhar menos ou que todos devem trabalhar mais. Trata-se de defender que nenhuma forma de vida seja imposta como superior às outras.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“O que você faz?”
Mas:
Que vida está sendo criada enquanto você trabalha?
E que outros caminhos podemos criar para que o trabalho faça parte da vida sem ocupar o lugar dela?
Bóris Ximendes Bonfanti, Mestre em Ensino e Presidente da Educriar