A dependência emocional costuma ser entendida apenas como fragilidade individual como se fosse um defeito de quem não consegue se sustentar sozinho. Mas ela também é produzida por modelos sociais que ensinam, desde cedo, que alguém só terá valor quando estiver ligado a outra pessoa.
Crescemos ouvindo que a vida se completa quando encontramos um parceiro, formamos uma família, casamos, temos filhos. Esse roteiro aparece como se fosse natural. Mas ele foi construído historicamente, envolve normas de gênero, expectativas familiares, religião, moral e economia. A família nuclear, o casal estável, os papéis definidos de homem e mulher, tudo isso é uma entre várias formas que a vida já organizou em diferentes tempos e culturas.
Quando um único modelo vira medida universal, tudo o que foge dele parece errado. Quem vive sozinho parece incompleto. Quem não quer casar precisa se explicar. Quem escolhe relações diferentes é visto como alguém que não sabe viver.
Aí a solidão passa a ser tratada como fracasso, e o vínculo passa a ser tratado como única fonte de sentido.
E é nesse contexto que a dependência se instala.
A pessoa começa a abandonar seus desejos, amizades, projetos, opiniões e modos de existir para manter o relacionamento. Aos poucos, acredita que não vai conseguir viver sem o outro, que não vai encontrar mais ninguém, que sua vida perde o sentido caso a relação termine. O amor vai se misturando com medo, com culpa e, muitas vezes, com controle.
Vale lembrar: a autonomia não significa não precisar de ninguém. Somos seres relacionais, precisamos de vínculos, cuidado e reconhecimento. O problema aparece quando a relação passa a exigir a renúncia progressiva de si.
E essa renúncia quase nunca é gratuita. Ela é sustentada por uma ideia de amor que aprendeu que amar é suportar tudo, adaptar-se sempre, cuidar do outro antes de cuidar de si e permanecer mesmo quando já não há espaço para existir com liberdade.
Também pode acontecer o inverso: alguém usa a dependência do outro para controlar. Isso aparece em ciúmes, isolamento, vigilância, chantagens, controle financeiro, desvalorização. Não se trata de ciúme "romântico", trata-se de uma forma de posse que reduz a liberdade e enfraquece o senso de identidade da pessoa.
Comunicação e inteligência emocional entram aqui de um jeito simples: nem sempre conseguimos nomear o que estamos vivendo. Muitas vezes só percebemos que alguma coisa está errada quando já abrimos mão de quase tudo. Reconhecer o que sentimos, conseguir dizer "isso aqui está me diminuindo" e ouvir o outro sem imediatamente se anular já é uma forma de cuidado consigo.
A solitude, nesse caminho, pode ser um espaço de reconstrução. Estar só não é o mesmo que estar abandonado. A solidão envolve sofrimento e ausência de vínculos; a solitude pode ser um tempo de escuta, de descanso, de reencontro com o que se é. Numa sociedade que valoriza excessivamente o casal, aprender a estar consigo mesmo vira quase um gesto político.
Na Educriar, quando trabalhamos comunicação, relações e autoconhecimento, é também isso que está em jogo: ajudar os jovens a construírem vínculos sem abdicar de si, a perceberem quando o cuidado vira controle, a entenderem que existir em relação não significa existir pelo outro.
Educar também é criar outros caminhos possíveis. Caminhos em que amar não signifique abandonar a si mesmo, em que estar só não seja confundido com estar vazio, e em que uma relação possa somar à vida sem tomar o lugar dela.
Bóris Ximendes Bonfanti, Mestre em Ensino e Presidente da Educriar
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