A convivência em sociedade depende da capacidade de ouvir, questionar e reconhecer que nem sempre conhecemos toda a verdade. Mesmo assim, cada vez mais pessoas são levadas a acreditar que precisam escolher um lado, encontrar um inimigo e reagir antes de compreender o que realmente aconteceu.
O perigo começa quando uma pessoa deixa de ser vista como pessoa e passa a ser tratada apenas por um rótulo. Alguém se torna “perigoso”, “desonesto” ou “culpado” antes que os fatos sejam verificados.
Quando isso acontece, a suspeita pode se transformar rapidamente em certeza. E a certeza, quando acompanhada de raiva e pressão do grupo, pode se transformar em violência.
Foi o que ocorreu com Cláudio Rafael Landeiro Moreira, morto no Rio de Janeiro após ser confundido com um ladrão de bicicletas. Segundo as investigações divulgadas pela imprensa, a bicicleta pertencia à irmã de Cláudio. Ainda assim, ele foi cercado e agredido por várias pessoas. As agressões continuaram mesmo depois que ele já estava caído e sem condições de se defender.
O caso mostra como uma acusação sem confirmação pode produzir consequências irreversíveis.
Antes de qualquer violência, algumas perguntas poderiam ter interrompido aquela situação:
A bicicleta foi realmente roubada?
Existe alguma prova?
E se essa pessoa estiver sendo confundida?
Essas perguntas parecem simples, mas podem desaparecer quando um grupo acredita que já sabe quem é o culpado. A partir daí, qualquer reação da pessoa pode ser interpretada como prova de que ela está mentindo. O silêncio pode parecer culpa. O medo pode parecer ameaça. A dificuldade de comunicação pode ser entendida como provocação.
A violência, muitas vezes, começa antes do primeiro golpe. Ela começa quando deixamos de enxergar alguém como um ser humano e passamos a enxergar apenas uma acusação.
Por isso, é necessário diferenciar proteção de punição. Interromper uma agressão que está acontecendo e chamar ajuda é uma atitude de cuidado. Perseguir, cercar e agredir alguém com base em uma suspeita é outra coisa. Nesse caso, não se está evitando uma violência: está-se criando uma nova violência.
A educação tem um papel importante nesse processo. Não porque algumas pessoas sejam naturalmente menos capazes de pensar, mas porque o acesso à escola, à leitura, ao diálogo e a diferentes formas de compreender o mundo ajuda a desenvolver a paciência, a dúvida e a capacidade de avaliar uma situação antes de agir.
Ainda assim, conhecimento não garante bondade. Pessoas de diferentes classes sociais e níveis de escolaridade podem agir com crueldade. Por isso, além de informação, precisamos desenvolver responsabilidade, empatia e respeito pela vida.
Nenhuma acusação deveria ser suficiente para transformar alguém em alvo. Nenhuma multidão deveria substituir a investigação. Nenhum sentimento de revolta deveria retirar de uma pessoa o direito de ser ouvida.
As palavras que usamos importam porque ajudam a definir como enxergamos os outros. Quando repetimos discursos que incentivam o desprezo e apresentam certas pessoas como indignas de respeito, podemos contribuir para um ambiente em que a violência parece aceitável.
Uma sociedade mais segura não é construída pelo medo de todos contra todos. Ela é construída quando aprendemos a controlar a reação, buscar a verdade e lembrar que uma suspeita nunca vale mais do que uma vida.
Antes de acusar, é preciso verificar. Antes de agir, é preciso pensar. Às vezes, uma dúvida é o que impede uma injustiça irreparável.
Educar também é criar condições para que as pessoas não sejam levadas pelo impulso e consigam interromper a violência antes que seja tarde demais.
Bóris Ximendes Bonfanti, Mestre em Ensino e Presidente da Educriar
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