No plural, elas já avisam: não existe uma forma única de ser jovem. E se a gente for olhar mais fundo, com os óculos da filosofia da diferença, o nome em si já carrega uma contradição. Porque juventude não é: juventude se constitui.
Não é uma essência, não é uma fase pronta que chega e passa. É um movimento contínuo: cada discurso, cada encontro, cada experimentação vai desenhando o que um jovem é naquele momento, naquela relação, naquele contexto.
Três pensadores nos ajudam a olhar para isso com outras lentes.
Spinoza: potência, não carência 🔵
Para Spinoza, ninguém é definido pelo que falta, mas pelo que pode. Um jovem não é "alguém que ainda não é adulto" é um corpo que afeta e é afetado, cheio de potência. O que importa não é o que ele deveria ser, mas o que ele pode: alegria, encontros, criação. Quando trabalhamos com juventudes, não estamos preenchendo vazios. Estamos ampliando potências.
Foucault: o discurso constrói o jovem 🔴
Para Foucault, somos atravessados por discursos que dizem o que podemos e devemos ser. "Jovem problemático", "jovem promissor", "jovem em situação de risco" cada rótulo é um discurso que produz realidades. Ser jovem é estar no meio de uma disputa: entre os discursos que aprisionam e os que libertam. Por isso a escuta importa tanto: o que dizemos sobre os jovens ajuda a constituí-los.
Deleuze: virtualidades, não destinos 🟣
Para Deleuze, o presente está cheio de virtualidades direções que ainda não existem, mas pulsam como possibilidades. O jovem não carrega um destino, carrega um campo de devires: devir-artista, devir-trabalhador, devir-cidadão. O que ele é hoje é apenas uma das muitas dobras que ainda podem se abrir. E é aí que entra a educação: criar condições para que as virtualidades se atualizem.
E então? Multiplicidades e agenciamentos
Se juntamos as três lentes, a juventude aparece como multiplicidade: não um, mas muitos em cada jovem, muitos jovens. E ela se faz em agenciamentos: com a escola, com a rua, com a família, com a tecnologia. Não é de dentro que o jovem nasce pronto; é nas conexões que ele vai se constituindo.
Por isso, quem trabalha com juventudes não trabalha com definições. Trabalha com encontros e com a aposta de que, em cada encontro, outros modos de existir se tornam possíveis.
Bóris Ximendes Bonfanti, Mestre em Ensino e Presidente da Educriar
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