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Educriar | Reflexão Longa - Texto Especial: Pombos, Bodes Expiatórios e a Arte de Culpar Quem Não Pode se Defender

 


Quando eu observo a forma como muita gente fala sobre animais na cidade, especialmente sobre os pombos, eu vejo algo muito maior do que apenas um “problema de saúde pública”. Eu vejo um retrato de como a sociedade escolhe, o tempo todo, quem vai ser o vilão da vez. E quase sempre recai sobre quem é mais frágil, tem menos voz ou é considerado “menos importante”.

Pombos, doenças e o exagero conveniente

É bem comum ouvir: “pombo é sujo”, “traz doença”, “tem piolho”, “faz mal pra saúde”. Essas frases circulam soltas, muitas vezes sem contexto. Sim, existem doenças relacionadas a pombos. Isso é um fato. Mas, quando eu coloco isso ao lado de outras fontes de adoecimento nas cidades, alguma coisa não fecha.

A poluição do ar, o lixo mal manejado, a água contaminada, os agrotóxicos, a fumaça dos carros e das indústrias são responsáveis por adoecer e matar muito mais gente do que qualquer pombo no telhado. Mesmo assim, esses temas quase não aparecem na conversa do dia a dia. Não vemos, com a mesma frequência, pessoas na rua dizendo: “essa fábrica está nos matando aos poucos”, ou “essa fumaça traz muito mais doença que qualquer pombo”.

O que acontece com os pombos é outra coisa: eles são visíveis, estão perto, são associados à sujeira, muitas vezes considerados feios. Viram o alvo perfeito. Assim, parte da responsabilidade coletiva e estrutural é deslocada para um animal que só está tentando sobreviver no ambiente que nós mesmos construímos.

A lógica do bode expiatório

Esse mecanismo tem nome: é a lógica do bode expiatório. Diante de problemas complexos: doenças, poluição, desigualdades, em vez de encarar as causas reais, mais profundas e incômodas, buscamos um culpado simples. De preferência, alguém ou algo que não pode se defender: animais, pessoas em situação de rua, determinados grupos sociais, populações que já são vistas como “incômodas”.

Com os animais isso aparece o tempo todo. O pombo vira praga. O jegue “sem função” pode desaparecer. O cachorro de rua é tratado como lixo. A onça é só um obstáculo para a expansão da pecuária. Em comum, está a ideia de que o valor da vida está apenas na função que ela tem para o humano. Se não serve mais para gerar lucro, se atrapalha, se ocupa um espaço que alguém quer explorar, então pode ser descartada.

Essa lógica também aparece quando se tenta minimizar ou negar o sofrimento animal: dizer que “não sentem tanto assim”, que “é só instinto”, que “não há apego de verdade”. Isso facilita justificar práticas que, se fossem reconhecidas como profundamente dolorosas, incomodariam a consciência.

Animais, interesses e negação da responsabilidade

Quando a gente aceita sem questionar essas narrativas de que o pombo é o grande problema da saúde, de que o jegue acabou porque perdeu função, de que a industrialização de animais é apenas “progresso”, a gente está afastando os olhos de algo fundamental: nossa responsabilidade.

Responsabilidade em como organizamos as cidades. Responsabilidade em como produzimos e consumimos. Responsabilidade em como tratamos seres vivos que sentem, sofrem, se apegam, ainda que de modos diferentes dos nossos.

Ao mesmo tempo, é importante dizer que defender animais não é romantizar tudo. Não se trata de negar qualquer risco sanitário ou ignorar a necessidade de políticas públicas para manejo de fauna urbana. Trata-se de recusar o atalho fácil: transformar um animal em vilão para não mexer na estrutura que realmente produz adoecimento e injustiça.

Quando a lógica sobre os animais se estende às pessoas

Quando olho para essa lógica de culpar quem não pode se defender, eu vejo o quanto ela é semelhante ao que acontece com certos grupos humanos. A juventude pobre, as pessoas em situação de rua, determinados territórios, identidades de gênero e orientações sexuais, muitas vezes também são tratados como problema em vez de serem reconhecidos como sujeitos de direito.

O mecanismo é o mesmo:

1) há problemas estruturais (desigualdade, falta de políticas públicas, exploração econômica, discriminação);

2) em vez de encarar isso, aponta-se o dedo para quem está na ponta, para quem é mais vulnerabilizado.

Por isso, pra mim, não existe uma divisão rígida entre “defesa dos animais” e “defesa das pessoas”. A ética que nega o valor da vida animal é muito parecida com a ética que escolhe algumas vidas humanas como menos importantes, descartáveis ou sacrificáveis.

Educriar, juventude e um outro olhar sobre o mundo vivo

A Educriar nasce e existe justamente nesse cruzamento: juventude, educação, crítica social e um outro modo de se relacionar com o mundo. Quando eu discuto com jovens a forma como a sociedade trata pombos, cães de rua, jegues, eu não estou “apenas” falando de animais. Eu estou convidando a olhar para o jeito como o poder e o lucro organizam nossas narrativas.

Negar a senciência dos animais, reduzir sua existência à funcionalidade, transformá-los em vilões convenientes, tudo isso faz parte de um mesmo sistema que tenta naturalizar desigualdades, normalizar explorações e silenciar quem está na base.

Quando um jovem começa a perceber essas conexões, ele também começa a se perceber de outro jeito. Entende que não é ele o problema individual, que muitas situações de sofrimento são produzidas por estruturas injustas. E, ao mesmo tempo, percebe que sua forma de olhar para os animais, para a natureza e para as outras pessoas pode ser mais cuidadosa, mais crítica, mais responsável.

Defender que um pombo não é o grande vilão da saúde pública, que um jegue não perde o direito de existir porque “perdeu a função”, é também defender que nenhuma vida deveria ser totalmente definida pelo mercado, pela utilidade ou pela aparência. É afirmar que há valor na existência, mesmo quando ela não cabe nas planilhas de lucro.

Esse texto é um convite: da próxima vez que alguém culpar um animal por todos os males da cidade, que a gente possa perguntar com calma: quem está se beneficiando dessa narrativa? O que acontece quando desviamos nosso olhar da poluição, das indústrias, das decisões políticas, para fixar tudo num único bode expiatório?

Talvez, ao mudar nosso olhar sobre os animais, a gente também esteja mudando, silenciosamente, nosso jeito de enxergar as pessoas e de construir uma sociedade em que mais vidas, humanas e não humanas, possam existir com dignidade.

Bóris Ximendes Bonfanti - Mestre em Ensino e Presidente da Educriar

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